SETOR DE CALÇADOS


1. Estrutura produtiva e de mercado da indústria de calçados

O processo produtivo na indústria de calçados caracteriza-se pela sua descontinuidade, com o fluxo de produção ocorrendo entre estágios bastante distintos entre si. As cinco principais etapas são: modelagem, corte, costura, montagem e acabamento. Em cada uma dessas etapas, as operações realizadas também são bastante variadas, de acordo com o tipo de calçado produzido.

A etapa de modelagem constitui-se, talvez, no estágio mais importante do processo produtivo, dado que é nela que se realiza toda a concepção do produto em si. Ao estilista-modelista cabe idealizar o produto final, considerando aspectos como as tendências da moda, os materiais a serem utilizados, a definição dos modelos e das formas que compõem o calçado. Além disso, o estilista-modelista tem a função de adequar a manufaturabilidade do produto, adaptando a sua concepção às condições e características do processo produtivo, inclusive no que tange a custos.

Em geral, não existe um termo muito preciso para definir o profissional (ou os profissionais) que atuam nessa área. Entretanto, mais recentemente vem se fazendo uma distinção entre o estilista (muitas vezes chamado de estilista-designer ou estilista-projetista) e o modelista técnico (ou modelista de fábrica). O estilista é o responsável por desenvolver novos projetos, novas construções e, se necessário, modificar a programação e construção do calçado. Essa atividade envolve não apenas o projeto do calçado mas também o desenvolvimento de formas, solados, moldes, definição de materiais, escala, cores, enfeites e detalhes. As pesquisas de moda através de visita a feiras, vitrines dos principais centros de moda mundiais e consultas a revistas especializadas também estão a cargo do estilista. Já ao modelista técnico cabe adaptar os novos modelos e projetos para a fabricação, verificando a escalação de modelos, palmilhas, solas e outros componentes, a comprovação dos cortes escalados e a programação de navalhas.

Em grande parte, os atributos finais do produto (conforto, aparência, durabilidade, estilo, etc.) dependem do conhecimento e criatividade do estilista e da competência do modelista, além da forma como estes conseguem interagir com as outras etapas do processo produtivo, inclusive com o departamento de vendas e marketing. Dessa forma, embora de modo geral não receba essa denominação dentro das empresas de calçado, pode-se dizer que o design ocorre principalmente na etapa de modelagem.

O processo tradicional utiliza o pantógrafo, que faz a escala e corta a cartolina para os modelos. Mais recentemente, os equipamentos CAD (Computer Aided Design) bi e tridimensionais vêm sendo utilizados para criar modelos a partir de informações estruturais digitalizadas e visualizadas no monitor, possibilitando uma precisão e agilidade muito maior na tarefa de modificação e criação de novos modelos.

Na etapa de corte, a matéria-prima é cortada de acordo com as determinações definidas na modelagem. No processo tradicional, o corte é realizado com facas e balancins. O operador, principalmente quando a matéria-prima utilizada é o couro, deve observar o sentido das fibras, a elasticidade e a existência de defeitos para definir as posições do corte e minimizar o desperdício de material. Os processos mais avançados utilizam o corte a laser ou jato de água, em geral de forma integrada com a modelagem por CAD, resultando em um aproveitamento da matéria-prima bastante superior dado que o controle da área a ser cortada é feito pelo computador. Deve-se ressaltar que as diferenças entre os processos tradicionais e os mais avançados é, em grande parte, determinado pelo tipo de matéria-prima utilizado e seu grau de homogeneidade/ heterogeneidade.

Depois do corte das peças, estas são unidas na etapa de costura ou pesponto. Nesta fase, de acordo com o tipo de calçado, as várias peças que compõem o cabedal são costurados, dobrados, picotados ou colados, e enfeites e fivelas podem ser aplicados. Existem máquinas de costura de controle numérico, porém de utilização restrita para alguns poucos tipos de costura e/ou de produto. Considerando-se os vários tipos de operação e as várias formas de realizar a união das peças de acordo com o produto final que se deseja obter, pode-se entender a restrição existente para que se avance na automação nessa etapa do processo e o predomínio da atividade manual (Costa, 1993).

Na etapa de montagem, o cabedal é unido ao solado. Os processos de união são bastante variados, envolvendo costura, prensagem ou colagem. A colocação de saltos, biqueiras e palmilhas também é realizada nesta etapa. Por fim, na seção de acabamento, o calçado é desenformado e passa pelos retoques finais: colocação de forro, pintura, enceramento, etc.

De maneira geral, pode-se perceber que embora a difusão da microeletrônica e da informática tenha exercido impactos importantes sobre o processo de fabricação de calçados, esses impactos ocorreram de forma mais intensa em algumas etapas do processo produtivo. Em algumas fases, como a costura e a montagem, a produção ainda mantém caráter artesanal e intensivo em mão-de-obra em virtude da dificuldade na automação. Nessas fases, a eficiência do processo ainda depende predominantemente da habilidade do trabalhador. Em outras fases, como na modelagem e no corte, é possível utilizar equipamentos como o CAD, inclusive de forma integrada com equipamentos microeletrônicos de corte e manufatura, especialmente quando se trata do processamento de materiais sintéticos ou de couro de qualidade mais elevada, cujos requisitos de uniformidade são bem mais elevados.

Dessa forma, as barreiras técnicas à entrada na indústria de calçados ainda se mantêm relativamente baixas e, apesar da diminuição de sua importância relativa como fator de competitividade, o custo da mão-de-obra continua sendo uma variável importante na determinação das estratégias empresariais efetuadas internacionalmente. Em geral, as barreiras não-técnicas são as mais importantes nesse mercado e envolvem principalmente a diferenciação de produto através de design sofisticado, fixação de marcas e estratégias de marketing agressivas. Um outro elemento bastante importante refere-se à capacidade de logística para efetuar o outsourcing global, por meio do qual os grandes fabricantes buscam matérias-primas e subcontratam as atividades mais intensivas em mão-de-obra naqueles países onde esses recursos sejam mais abundantes.

Não se pode considerar, entretanto, que exista uma estrutura de mercado única e totalmente definida para a produção de calçados, uma vez que as características concorrenciais são bastante distintas de acordo com a matéria-prima utilizada (couro, material sintético, tecido) e com a segmentação de mercado para o consumo final (calçados masculinos, femininos, sociais, esportivos, de segurança, etc.). Um exemplo claro disso é a distinção entre os processos de produção dos calçados de couro e de material sintético. Esses últimos apresentam, em razão das características da matéria-prima, uma produtividade substancialmente maior que a de calçados de couro, ainda de caráter semi-artesanal e com fortes barreiras à automação. Outro exemplo é a diferença entre os mercados de calçados masculino e feminino. Os calçados masculinos, por manterem uma linha básica em termos de design, não exigem das empresas uma flexibilidade tão grande quanto os calçados femininos, para os quais a influência da moda é muito mais significativa.

Em geral, para a produção de sapatos mais simples e pouco sofisticados, as necessidades de capital são bastante reduzidas e as barreiras à entrada são pouco elevadas, fazendo com que o custo da mão-de-obra ainda seja um dos determinantes principais da competitividade da indústria. Nesse caso, o preço do produto é o principal vetor de competição. Já para os segmentos de calçados de maior valor agregado, mais complexos e sofisticados (por exemplo, o tênis) e para os estratos de renda mais elevada, o padrão de concorrência envolve barreiras à entrada mais efetivas.

Como já foi ressaltado, a dificuldade de entrada nesses segmentos é maior não apenas por razões técnicas, dadas pelo maior custo das máquinas mais avançadas tecnologicamente, mas principalmente pela necessidade de criar produtos diferenciados e que atendam às variações da moda. Um exemplo é o segmento de tênis esportivos, além da tecnologia de produto ser bastante complexa, envolvendo o desenvolvimento de novos materiais, solados e pesquisa de ergonomia, o marketing e o design cumprem uma função fundamental para a identificação da marca.

Um exemplo bem claro da importância da fixação de marcas é a empresa Nike, de origem norte-americana, líder mundial no segmento de calçados esportivos, com um faturamento de US$ 6,5 bilhões em tênis, roupas e equipamentos esportivos e lucros líquidos de US$ 550 milhões no ano fiscal de 1996. Esses números são o resultado de uma estratégia alicerçada em dois pontos principais: um enorme esforço publicitário, que se traduz em campanhas de marketing bastante agressivas, e fortes investimentos em design e desenvolvimento de produtos, que envolve o lançamento de, em média, um tênis por dia (Revista Exame, n. 662/96). Copiar ou imitar a imagem associada a marcas líderes, como a Nike, depende de uma estratégia de marketing agressiva e bem planejada, envolvendo elevados volumes de recursos.